quinta-feira, 14 de abril de 2011


Nem sei bem a razão porque vou escrever este texto, sei apenas que neste momento a minha dor é maior que quase tudo. Eu sinceramente estou farta de ter que fingir que está tudo bem, ter que sorrir todos os dias quando na verdade as lágrimas são o que me consomem por dentro. Hoje sentei-me na cama e peguei numa fotografia de quando era pequena, observei-a durante meia-hora. Depois de tantos minutos a observa-la escorreram-se duas lágrimas, uma de cada vez. Mesmo assim, fui forte, limpei-as e guardei a fotografia no seu lugar certo. Voltei para a cama, desliguei a televisão e fechei a janela do meu quarto. Deixei apenas a luz da tela do meu computador iluminar-me. Afastei-me de tudo e de todos, apenas para poder pensar no que seria a minha vida, o que seria feito de mim, de ti, da mãe, da nossa familia. Daqui a cerca de dois meses vais partir, vais me abandonar, vais me deixar sozinha no meio de tanta coisa má. Lembras-te quando o meu irmão partiu e me abandonou? Eu lembro-me. Lembro-me de ter chorado dias seguidos, sem quase comer e beber, e quando fechava os olhos só tinha pesadelos. Lembro-me também que a única pessoa que me apoio nesse momento díficil da minha vida, foste tu. Eras tu que me pegavas, sentavas-me na tua perna, e me dizias que ele voltaria e que chorar não valia nada; dizias-me que um dia mais tarde eu o encontraria e mataria todas as saudades. Hoje percebo que isso eram palavras para me consolar, porque desde o natal de 2008 ele nunca mais voltou, e agora só estarei com ele quando eu também partir e deixar tudo e todos. Mas mesmo assim, foram as melhores palavras; foste a melhor pessoa nesses dias; foste o único que me ajudou e não me abandonou. E agora, quando partires? Pergunto-me eu. Quem é que me vai ajudar? Quem é que me vai consolar? Sei que agora estou mais crescida, e devia saber lidar com isto, mas tu és o meu pai. És o meu pai e eu não estou pronta para te perder. Posso estar mais crescida, mas ainda sou muito pequena, e preciso de ti para continuar. Recordo-me da minha infância, de todos os nossos momentos, de todas as palavras, de todos os abraços e beijos. Sabes, eu sei que nunca fui e nunca serei a melhor filha. Eu lembro-me de quando era pequena, e o que sentia por ti e o que te dizia era horrivel. Dizia-te que eras o pior pai do mundo, e que te odiava mais que tudo e todos. Como me arrependo disso, como me arrependo de todas essas palavras ditas da boca para fora. Eu nunca te dei valor nenhum, nunca me foste importante, nunca servis-te de nada na minha vida, foste sempre como lixo para mim. E sim, eu arrependo-me de tudo isto que te dizia e achava de ti, e custa-me muito escrever estas coisas, porque se tudo fosse perfeito, eu dizia aqui o que acho hoje de ti, dizia que eras o melhor pai do mundo e que te amava acima de mesmo muita gente. Sabes, hoje sei que em breve me vou separar de ti para sempre; hoje vejo os dias passarem cada vez mais rápido; hoje vejo que te amo de verdade. Porque é que está a ser tudo assim? Porque é que não ficas aqui comigo? Eu não vou partir contigo, porque recuso-me a perder tudo aquilo que construi aqui, mas, sei que agora já nada disto faz sentido sem ti ao pé de mim. Eu não vou partir contigo para não mudar a minha vida, mesmo assim, acredito que não indo contigo as coisas vão mudar ainda mais. Estou aqui sentada, e estou a reflectir sobre um assunto que me incomoda à muito tempo. Será que vais partir por já não gostares de mim? Vais embora. Vou deixar de sorrir como sorrio agora, ou se sorrir, vão ser sorrisos pequenos e falsos. Nunca mais vou conseguir sorrir verdadeiramente, não vou conseguir voltar a ser feliz. Sabes? Estou farta de ter que ser actriz, fingir que eu estou bem quando na verdade quero morrer. Eu sem ti já não dá. Ainda estás aqui comigo, ainda não me deixas-te, e já me estou a imaginar sem ti. Eu ainda não te pedi um pedido de desculpa por todas as minhas atitudes, nunca te olhei nos olhos e disse que te amava e que eras um orgulho que tenho vindo a seguir. Eu estou-te a tentar recuperar, mesmo que ainda não tenhas visto isso. O abraço que me deste a algumas semanas deu-me forças para continuar a lutar. Depois de muitos anos, sem abraços ou beijos, tu deste-me um abraço enorme. Abris-te os braços, e apertaste-me com tanta força que só me apetecia chorar ali. Chorar de felicidade, porque à muito tempo que não te sentia. Eu estou a escrever este texto, mas sei que não o vais ler. Isto são apenas palavras que nunca chegarás a ler, isto pode ser apenas uma perda de tempo. Não tenho coragem de te entregar esta folha, tenho medo da tua reacção e não me sinto com forças suficientes para isso. A nossa história foi um odeio-te que se transformou no maior amo-te, passas-te do pior para o melhor pai do mundo; e eu? Ainda serei a pior filha, ou também passei para a melhor? Vou acabar este texto com poucas mais palavras. Eu fiz este texto, cairam-me muitas lágrimas e eu limpei-as; mas ainda assim a minha dor continua e sei que quando partires ela será ainda maior e pior. ♥

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